sábado, 3 de novembro de 2007

"Ô chuva vem me dizer
Se posso ir lá em cima prá derramar você"

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Considerações sobre mim mesma

Definitivamente sou uma pessoa mediana. Sou de outono e primavera. Sou de doce amargo. Meio amargo. Não sou do tipo chocolate ao leite. Sou daquelas tipo chocolate amargo e geléia de abacaxi. Sou dessas mulheres que toma vinho seco e chopp claro. Sou daquelas que toma suco sem açucar e salada sem sal (menos de rúcula). Que gosta de pimenta (mas não muito forte). Dessas que preferem as margaridas e os girassóis. Há muito mais cor nos girassóis.
Sou dessas mulheres que não sentem muito intensamente as coisas (mas gosto do vento). Daquelas que percebem a falta de alguma coisa, mas levam tempo pra descobrir que é dos amigos. Das que raramente se apaixonam (de verdade). Mas que sempre ficam caídas por alguém (e sofrem resignadas). Penso, as vezes, que sou mesmo do tipo que os homens não querem se apaixonar (porque sou assim, meio torta). E sofro resignada, um pouco conformada.
O que torna minha vida mais mediana é mesmo não ter vivido intensamente as coisas. É esse desânimo drummondiano de seguir em frente.
É o nunca ter sido mais do que eu sou. É a sensação do para sempre (não como no caso da Cinderela)...

domingo, 28 de outubro de 2007

Manoel de Barros e o chinuque

"Ela coloca raízes de potentilha na pequenez de um cesto para conchas"

Quem disse foi Boas (1911), eu tirei de Lévi-Strauss (1989). Mas Boas estava dizendo da maneira chinuque de enunciar os fatos. Das abstrações...

Depois disso ficou mais fácil entender Manoel de Barros. Ele olha para as coisas de um modo chinuque (ainda que também olhe de azul, ou de ave, ou de criança).

sábado, 27 de outubro de 2007

Edith Piaf

Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal
Tout ça m'est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
C'est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé
Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux
Balayés mes amours
Avec leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro

Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait, ni le mal
Tout ça m'est bien égal
Non, rien de rien
Non, je ne regrette rien
Car ma vie
Car mes joies
Aujourd'hui
Ça commence avec toi...

Dor

ando doente de uma doença de não ter
de não ser
não estar
não poder
não tocar
e querer
querer
querer

querer que seja de gritar
querer de poder querer
é essa aflição da dor que rasga
(dessa daquelas sem razões da mente)

uma grita em mim
(em minha cabeça grita)
ela se agita e bate uma e outra vez
é esse (des)sentimento que insiste em sentir
(não vem de mim, vem de um não ser de alguém)

como poder
e cessar a dor como?!

(volto ao ponto onde começo - queria a leveza da ave mas por hora me contentaria em saber do sentir do outro - ou em me saber no outro)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

não sei o que dizer desses dias tortos
em que eu me perco em encontrar
no quanto mais sinto de mim menos sei
no quanto mais penso mais

mais de não saber
mais de querer
mais de temer
um mais de pânico

esses dias tortos que parecem passar sufocantes
que parecem causar tremores
horrores

esses dias vão passando
os dias
a sanidade passa com os dias
trepido em temores

porque hoje mais sei de manhã e menos sei dos certos
hoje mais quero o jasmim
e o engasgo que vem só pode ser do querer do jasmim

do longe do longe
que espera passar os dias para sentir
no longe que está que não pode tocar
as mãos e os lábios e o cabelo
e tudo e tudo
tão longe logo ali

que tem que esperar
passar os dias
passam
lentos longos quentes
passam trepidantes ensurdecedores
passam chuvas

e o querer do ter
a vontade de estar na presença
o sentir querer

esse sufoco na garganta
dos dias que passam e não passam
porque chega 5 mas não chega 15
porque queria 15 mas não queria 5

e tem que ser

terça-feira, 4 de setembro de 2007

desse e de outros setembros

Para os dias que param
frenéticos e sonolentos

Para as noites que não adormecem (às quatro horas da manhã)
Para as manhãs que adornam as horas com gosto de café e suplícios de erva-doce

Para a solidão de horas a fio passadas no parar dos olhos que não são
... não sabem, simplesmente...
Para os olhos de água, olhos vermelhos

Para o torpor das manhãs (des)inebriadas
pela falta, pela (des)sabedoria...
que não deixa de ser esse entender das coisas todas
esse sofrer pelas manhãs
essa falta das pernas
dos braços

Para as mãos que suplicam (in)sanidade
e (des)instabilidade...
as mãos ora trêmulas, ora frenéticas, ora autistas, ora molhadas
da mesma água dos olhos

As mãos que sabem, que ouvem (mais que os ouvidos)
Da sabedoria que só quer saber de poesia
por ora dilacerada pela antropologia (que pretende poesia!)

(Ainda procuro algum modo de ser ave
por ora me contento com o vento batendo no rosto
e o gosto de mais um setembro
e as lembranças, os desejos, os ensejos)